. Entrevistas .

In Blitz - Junho de 2002


Houve um atraso na edição de "Egostrip -A Retrospective". Esse é um episódio sintomático do percurso preenchido por obstáculos dos More República Masónica?

Jorge Dias- É um bocadinho, mas temos vencido os obstáculos todos. As coisas demoram mais do que aquilo que desejamos, mas, basicamente, conseguimos aquilo que queremos. Não estávamos contentes com a capa que veio. Por uma questão de se fazer finca pé e de se pretender que as coisas saiam como devem ser, acabámos por ter que esperar mais tempo. Mas está cá e está bem.

Nesta abordagem ao vosso passado, nunca se sentiram tentados a realizar uma revisita aos vossos mais importantes temas- à semelhança do álbum "Mão Morta Revisitada"- em vez de fazerem uma simples retrospectiva de gravações já feitas?

Paulo Coelho- Isso teria outro tipo de implicações, mais económicas. Esta foi uma maneira prática e bastante económica de mostrar às pessoas o nosso trabalho desde a fundação da banda. O que tu disseste exigia uma regravação dos temas. Seria bastante mais trabalhoso. Achámos que era muito mais interessante mostrar as coisas às pessoas tal como elas foram feitas. O nosso percurso e evolução serão melhor demonstrados desta forma. Caso contrário, seria uma adulteração sobre o que nós fizemos até agora.

JD -Para estar a gastar dinheiro a gravar um disco, mais vale fazermos um álbum novo (risos). As compilações são precisamente para recuperar o material antigo.

PC -Não é que o conceito não seja interessante. Mas como era uma retrospectiva do nosso trabalho, tinha interesse para as pessoas que tiveram contacto com o nosso anterior álbum ouvirem o nosso material anterior da forma mais natural possível.

Efectuaram para esta retrospectiva uma versão de "Zip Zap Womam"dos Pop Dell'Arte. Foi pelo facto de partilharem da mesma filosofia de vida da banda de João Peste que avançaram para esta versão?

PC- Talvez, não sei qual é a filosofia de vida dos Pop Dell'Arte. Mas estou a perceber a tua questão: em termos de postura de banda e de mercado, acho que sim. É uma banda que admiramos muito e é um tema de que gostamos bastante. Como se trata de uma música que tocamos ao vivo há um ano, decidimos introduzi-la na compilação. É como que uma homenagem aos Pop Dell'Arte, que respeitamos e acompanhamos desde o início.

Sempre houve nos More uma vontade em fazer versões. Há alguma razão especial para isso?

Nuno Castêdo- É divertido fazer versões, sobretudo ao vivo, apenas pelo prazer que nos dão. Como músicos, através da nossa perspectiva musical, conseguimos reconstruir, de uma forma criativa, canções de outros autores ou bandas. Esse é um exercício bastante saudável.

JD- Também serve para desanuviar aquela tensão de estar sempre a compor coisas próprias, ou ir para os concertos e ter sempre um repertório próprio. Tocar músicas de outros autores, e que as pessoas conheçam, é um momento de quebra de tensão. Há um lado lúdico interessante e algumas dessas versões acabaram gravadas em disco.

NC- Já fizemos versões dos Cosmic City Blues, dos T-Rex, dos Damage Fanclub, dos Portishead...

JD- Do Donovan, dos Kiss... Foram versões para serem tocadas essencialmente ao vivo. Algumas delas foram gravadas, como a dos Portishead ["Roads"] ou dos GNR ["Piloto Automático"], que tiveram uma importância mais significativa na altura em que foram gravadas.

Nunca se sentiram tentados a fazer a versão de "Remar Remar", dos Xutos, tendo em conta a mensagem do tema?

JD- (Risos) Temos remado bastante, a maior parte das vezes contra a corrente. Mas a estética dos Xutos não está assim tão próxima da nossa, em particular porque eles usam o português, e nós deixámos de o utilizar. Como não nos convidaram para a compilação de homenagem aos Xutos, decidimos não gravar a canção (risos).

Formaram-se em 1988, quando ainda existia o Rock Rendez-Vous. Que memórias guardam desse espaço?

JD- O Rock Rendez-Vous era o sítio que ainda hoje sonharíamos continuar a ter na nossa cidade. É um espaço que faz falta e que, inacreditavelmente, não apareceu nos últimos dez anos. Partindo da iniciativa individual de algumas pessoas, conseguiu-se criar um movimento à volta daquela sala. Isso foi muito inspirador, em termos criativos, para as bandas, para o movimento musical da altura, e isso reflectiu-se em todo o país. Apareceram salas por Portugal inteiro. Quanto ao facto de não haver hoje nenhum equivalente, é terrível, porque não se consegue ter um lugar com constância onde se consiga apresentar música ao vivo. Para as bandas novas é péssimo. Uma banda nova que não tem uma sala para se apresentar ao vivo é uma banda com as pernas cortadas à partida. Antes de mais, uma pessoa tem que testar ao vivo a sua música e comunicar com as pessoas, essencialmente em palco. Hoje em dia, é difícil fazer isso.

PC- Há hoje projectos lançados por editoras que não têm qualquer rodagem de palco, o que é uma verdadeira aberração. Praticamente não sabem o que é estar em cima de um palco, não têm aquela sensação de estarem à frente de um público. Considero isso sintomático do estado a que as coisas chegaram. Nessa altura do Rock Rendez-Vous, havia uma alternativa, pelo menos em termos de as pessoas se poderem deslocar a um sítio para verem bandas novas. Hoje, isso já não existe.

Uma das formas de uma banda nova se apresentar ao público ocorria através dos concursos de música moderna do Rock Rendez-Vous. Vocês participaram no 6º Concurso de Música Moderna daquela sala, do qual foram expulsos. Esse foi o primeiro contratempo do vosso percurso?

JD- Não. Esse não foi um contratempo, foi antes uma questão de atitude. Os concursos são um passo importante para uma banda nova se apresentar às pessoas e conseguir trabalhar para mostrar o seu projecto. Tipicamente, os concursos têm o seu valor mas são muito viciados e limitativos. Uma banda que queira apresentar o seu trabalho tem aí um primeiro passo indiscutível. Mas a verdade é que existem uma série de circunstâncias que anulam essa projecção. Vi alguns concursos, e constatei que as bandas mais válidas criativamente são aquelas que nunca vencem. Já no concurso do Rock Rendez-Vous acontecia um bocado isso: bandas como os Mão Morta e os Pop Dell'Arte ganhavam os prémios de consolação, que eram os prémios de originalidade. Os que ganharam os concursos eram bandas de que já ninguém se lembra. com a excepção dos Mler If Dada. Isso é um bocado redutor. Participámos no último concurso do Rock Rendez-Vous e utilizámos esse canal como um trampolim para ganhar maior exposição, mas não nos deixando cercar por essas circunstâncias que envolviam os concursos da altura. Nesse concurso em especial, havia muitos aspectos limitativos: não se podia cantar em inglês, não se podia fazer versões, não se podia tocar mais do que não sei quantas músicas, não se podia fazer isto nem aquilo.

Ainda falando de concursos, vocês participaram no programa televisivo "Aqui DeI Rock", mas também acabaram eliminados, apesar de terem vencido a primeira eliminatória...

JD- Não fomos à final, mas a atitude foi exactamente a mesma: foi a de irreverência perante aquilo em que estávamos. Uma banda que ganha uma eliminatória e que lhe é atribuída uma medalha por isso, é um bocado ridículo.

PC- E uma medalha da Câmara Municipal de Almada.

Aliás, a vossa vitória da primeira eliminatória do "Aqui Del Rock"chegou a aparecer na síntese noticiosa da abertura do Telejomal.

PC- Isso foi uma antecipação aos tempos actuais. Hoje, morrem quinhentas pessoas na índia e abre-se o Telejornal com a lesão do Paulo Sousa. Acho que é um bocado a mesma coisa. Aliás, tive hoje um episódio bastante interessante quando vinha para o emprego de manhã. Ao meu lado, ia uma senhora a ler a "Nova Gente", e qual não é o meu espanto quando olho para o lado e vejo uma foto dos More República Masónica exactamente ao lado da Catarina Tallon. A mim deu-me um certo gozo pertencer, por dez minutos, ao jet-set e aos mexericos dessas revistas que as pessoas lêem. Gostei da sensação de ser famoso.

O vosso primeiro álbum no verdadeiro sentido do termo, "Blow Your Mind", apenas foi editado em 1995, sete anos depois da vossa formação. Não foi tempo a mais?

PC- Não, gravámos um disco em 1992, um mini-lP com seis temas ["More More More"], e passados três anos editámos o primeiro álbum a sério. Julgo que o nosso "timing" de edições tem sido uma consequência daquilo que temos produzido como banda. Não nos sentimos obrigados a editar um disco todos os anos, até porque não temos estrutura para isso, e julgo que isso seria um suicídio para nós, tanto em termos criativos como em termos de mercado. Temo-nos dado bem com essa situação e não nos temos queixado muito da regularidade das nossas edições.

NC- E a nossa liberdade criativa tem também a ver com o facto de não precisarmos da música para viver. E daí termos um tempo limitado para dedicarmos à banda.

JD- Apesar de todos estes contratempos e de não sermos profissionais da música, não nos queixamos muito, porque, em doze anos, temos três álbuns originais, um mini-LP, uma compilação, e mais um álbum novo gravado, já para não falar de outras produções. Em nome próprio, temos cinco edições e uma a caminho. Poucas bandas em Portugal se poderão dar ao luxo de dizer que em doze anos de actividade têm tantos álbuns como nós. E, sinceramente, sinto que temos melhorado de disco para disco, e digo isto sem nenhuma presunção. Se calhar, um dia atingiremos a nossa obra-prima: o duplo álbum gravado no Budokan, no Japão, que venderá milhões (risos).

Curiosamente, o "Equalizer" sucedeu em apenas um ano ao "Blow Your Mind". Até que ponto o "Equalizer" marcou uma nova fase nos More República Masónica?

PC- Considero o "Equalizer" o nosso primeiro trabalho a sério, com produtor, com trabalho minimamente planificado, com pré-produção. Não foi a rebaldaria da gravação do "Blow Your Mind", em que acabámos por fazer as coisas sozinhos. No "Equalizer"já se nota uma certa evolução.

NC- Esse álbum foi um salto bastante grande em termos criativos. Mesmo como músicos, evoluímos muito. Se ouvires o "Blow Your Mind"e o "Equalizer", notarás grandes diferenças ao nível da execução técnica.

PC- O "Blow Your Mind"é um disco mais experimental, onde utilizámos uma série de coisas que não fizemos no "Equalizer", um bocado por termos contratado o Marsten Bailey. O "Equalizer" é mais um álbum feito por um produtor do que propriamente pelos elementos da banda. Trabalhando sozinho, tens um controlo muito maior sobre o que queres fazer. Ter trabalhado com o Marsten foi muito importante, porque aprendemos muito com ele. Tivemos um trabalho de pré-produção com ele, que nos habituou a tirar melhor partido dos instrumentos, originando um rendimento melhor em estúdio.

O "Chemical Love Songs" teve a produção de um nome reputado como o Jack Endino. Em que medida foi ele uma mais-valia para esse disco?

JD- Ele criou sempre boa onda nas gravações e era uma personagem com muita energia. Mais do que tentar marcar o disco com um tipo de sonoridade, ele tentou pôr em prática as nossas ideias e consolidar o que estava na nossa cabeça. Ele fez um óptimo trabalho, sobretudo porque nos permitiu experimentar tudo aquilo que quisemos, com o controlo e a opinião dele. Com o "Chemical love songs", podíamos ter feito com o Jack Endino o nosso disco grunge e não fizemos. Provavelmente, aquele até é o nosso álbum mais experimental. Penso que foi uma boa colaboração.

Sofreram há pouco tempo uma baixa, o Paulo Vitorino. Ele saiu por que razão?

JD- Pá, damos cabo dos guitarristas todos.

PC- Teve as opções dele. Foi uma saída pacífica da banda. Acho que ele deixou de se interessar em fazer música. Mas essa é uma opção de vida como outra qualquer.

JD- Essa foi uma motivação de índole pessoal que não tem muito a ver com a banda. De qualquer maneira, voltámos ao formato de trio, que é um formato que já tínhamos experimentado antes. Gravámos bem a três. Tínhamos gravado praticamente todo o "Equalizer"a três. E agora voltamos a gravar a três. Se encontrarmos uma pessoa que se integre perfeitamente na banda, porreiro. Mas, neste momento, nem sequer temos planos para isso.

Vocês falaram num álbum gravado a três...

JD- Sim, temos um novo álbum gravado, que sairá num futuro próximo, não sabemos , ainda se este ano. Gravámos o álbum com o Marsten Bailey. Ainda não tem nome. Vai ser o nosso melhor álbum de sempre. É o tal disco que vai fazer o ponto de viragem, iniciando um novo ciclo.

Musicalmente, esse novo ciclo refledir-se-á de que modo?

JD- As canções são mais ambiciosas e mais conseguidas. E mesmo em termos de som, o disco vai ser um bocadinho diferente daquilo que era. Vai ter um ambiente um pouco mais sofisticado, irão existir outros arranjos para além do suporte habitual de guitarras, baixo, bateria e voz. Vai haver mais teclados e sons mais abrangentes. Quem sabe se no futuro regressamos ao formato punk/rock de canções de dois minutos. Mas para já, testamos na fase do progressivo-More República Masónica (risos).

- Gonçalo Palma

Público Maio 2002 >


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